26.6.09

Uma nuvem de gafanhotos invadiu minha plantação
Destruiu as folhas, comeu os frutos, devastou
Para meu alívio, e temor de agricultores distraídos,
foi seguir o seu extinto de sobrevivência,
invadir novos campos, destruir o bem alheio e partir.
Um final sempre feliz!

14.3.09

preparo o corpo, engano a alma


Me dispo de pelos. Axila, umbigo, virilha.
Esfrego o corpo, esfolo a sola do pé.
Limpo as unhas. Confiro o cheiro do meu sexo com os dedos, e o gosto.
Penteio os cabelos e bagunço pra parecer natural.
Ensaio coisas que não vou dizer.“Passei o tempo me masturbando”.“O sutiã novo aperta”.“Calcinha no cú incomoda”.
Visito todos(as) que passaram entre minhas pernas – gozo na geladeira vazia.
Muitas coisas para fazer, passo um café e adio até amanhã.
Danço o voz negra da branca viciada. Me sinto bem. Péssimo sinal.
Raros os momentos que escrevo quando me sinto bem. Neste momento escrevo.
Passeio dia pensando em sexo. Agora só queria ir encher a geladeira, o supermercado fica aberto até meia-noite.
Tomei banho com o sabonete dele, seu cheiro em minha pele, enganei minha alma.
Durmo em paz.

19.2.09

Coisas terríveis de se ouvir


2 - Preciso ficar só,
sem seus assuntos descabidos.
Dos outros, talvez.

3- Precisamos ser fortes.
eu não fiz a coisa certa,
a porta eu deixo aberta.

Coisas terríveis de se ouvir


1 - Não me acostumei com teu corpo,
com o cheiro do seu café pela manhã.
Com seu afeto que não tem hora.

1.11.08

Uma ficção

O que começou ao som de “Garotos” só poderia ter esse destino melodramático.
“Vou para casa da minha mãe”. Não, não foi uma mulher traída que disse isto.
Os mistérios não são Dela, são Dele. E nem são mistérios irresistíveis, são pequenas mentiras. Irresistíveis.
Tudo começou com um elogio ao cabelo Dela, como estava bonito, tinha cortado, pintado?
Ele não resistia a uma mulher pseudointeligente.
Na verdade as frases eram atiradas em direção inserta, qualquer alvo que acertasse seria uma pseudointelectual. Estava no bar certo, freqüentado por universitário, jornalistas, artistas, blogueiros e público GLS.
- Seu cabelo está lindo, cortou?
- Seu cabelo está lindo, não sei... é a cor?
- Seu cabelo está lindo, meu anjo.
A vítima era certa, nenhuma mulher resiste quando elogiam seu cabelo ao pé-de-ouvido.
As peças eram retiradas lentamente ao som de jazz. E Ela jaz em sua cama, sua rede, sua sede.
Na geladeira bebida suficiente para a noite, na dispensa para a dispensa no café da manhã.
Uma mensagem no dia seguinte, uma música do Sergio Sampaio. E Ela, só pensava em se aprofundar nas obras de Klint.
Dois empregos, casa própria, carro, motocicleta. E por extinto feminino só pensaria na procriação, em como chamariam seus filhos.
E Ela, mesmo sem saber de suas rendas, sonhava com um menino que levasse o apelido de seu pai. Aliás, toda vez que se apaixonava pensava no pai, será que eles iriam rir jogando sinuca num boteco de esquina, que discutiriam política no café, trocariam por uns tempos seus vinis?
E ao som de Leoni, no dia seguinte Ele a deixava na porta do emprego em Cariacica, em Serra, ou na casa de seus pais em Jardim da Penha, ou Barro Vermelho.
E ao som de Leoni, buscava no aeroporto, na rodoviária.
Levaria da rede pra cama, prepararia o café. Seria o melhor confidente, o melhor amigo, insistiria pra pagar a conta, apresentaria lugares novos, autores novos, novas posições a cada noite.
E qualquer mulher, qualquer uma, esqueceria que era Leoni que cantava.
E depois das roupas misturadas no armário, do transcol para o trabalho e das contas divididas, Ele seguro, sempre usando a mesma posição e nunca mais preparando o café, ameaçava Ela dizendo: “Vou para casa da minha mãe”.
E Ela sabia que tudo teria que ser do jeito Dele, sempre foi, e arrependida de ter falado o que pensava, o que sentia, gritava “se você for embora eu vou ficar desesperada” e Ele “pára, você está se humilhando”, ficava.
Tudo culpa do Leoni.

17.10.08

Nota da falecimento

Eu, Medéia,
te presenteio com os filhos que não tive.
Mortos com a pílula que me ofereceu.